Como o Mercado Fitness e as Redes Sociais Transformaram o Esporte em Ostentação, do "Just do It!" ao "Why do It?"
O mercado fitness fatura cifras recordes e, há tempos, as empresas entenderam como canalizar esse fluxo para seus cofres. As campanhas persuasivas mudaram de tom: o marketing do "suor e lágrimas", que mostrava a rotina solitária de superação, deu lugar a ambientes solares, alta carga social e atividades recreativas. Saímos do "Just Do It" (Apenas faça) para o "Why Do It?" (Por que fazer?). Da afirmação da superação ao questionamento do propósito, vemos um choque geracional resumido em duas frases.
Não que a prática esportiva seja ruim, mas ela se tornou uma "onda". E quando algo vira mania, a linha entre a vontade própria e a necessidade de consumir o que todos estão exibindo torna-se tênue.
A "bola da vez" é a corrida de rua. No pós-pandemia, a modalidade tornou-se o carro-chefe da tendência fitness, superando em praticantes a própria musculação — antiga queridinha das redes sociais. As marcas mergulharam de cabeça nesse nicho. A brasileira Olympikus, por exemplo, investiu em alta tecnologia e saltou de marca de entrada para protagonista no país. Mas fica a dúvida: a marca cresceu por causa da corrida, ou a corrida inflou devido ao apelo de vendas das marcas?
A Nike mantém sua tradição com modelos icônicos, como o Pegasus, já em sua 43ª edição. Já a Adidas, buscando recuperar terreno, investiu pesado no estilo de vida "runner", criando clubes de corrida tão fortes que, na Maratona de Chicago de 2025 — historicamente território da Nike —, os acessórios da marca alemã foram maioria.
Essa busca pelo lucro transformou a corrida, que sempre foi uma atividade simples (tênis, asfalto e você), em uma engrenagem de consumo. Do tênis de placa de carbono ao boné tecnológico, os apetrechos estão cada vez mais caros. A motivação mudou: eu mesmo já não me sinto confortável em correr sem um gadget que monitore meu rendimento — não apenas para controlar minha evolução, mas para gerar o post após o treino.
As redes sociais atuam como o catalisador dessa metamorfose. Se antes o corredor buscava o "endofina", hoje busca o "engajamento". A corrida de rua tornou-se o conteúdo perfeito para o algoritmo: é visual, transmite uma imagem de sucesso pessoal e permite uma vitrine constante de produtos. Não se corre mais contra o relógio, corre-se contra a invisibilidade digital.
O Strava e o Instagram criaram uma espécie de "panóptico do fitness", onde o treino que não foi postado parece não ter existido. Essa necessidade de validação externa alimenta um ciclo vicioso: para postar algo novo, o corredor precisa de um novo outfit, de um tênis de última geração e de uma medalha de uma prova "premium". As plataformas transformaram o asfalto em um palco, onde o esforço físico é apenas o acessório de um estilo de vida que precisa ser vendido e consumido em 15 segundos de vídeo.
Essa pressão estética e social distorce a essência do esporte. O iniciante, que deveria se orgulhar de seus primeiros cinco quilômetros, sente-se intimidado por não possuir o relógio de mil reais ou o vestuário de compressão que as influenciadoras do "lifestyle runner" exibem. O que era para ser libertador tornou-se uma métrica de status; o que era para ser saúde, tornou-se ansiedade digital.
Além disso, surgiram as consultorias de corrida, muitas vezes lideradas por corredores experientes sem formação técnica, buscando renda extra no "boom" do mercado. Os eventos de prova são um capítulo à parte: tornaram-se "experiências" caríssimas onde o ato de correr parece secundário. O auge desse fenômeno foi a Maratona de Nova York deste ano, com filas de espera imensas e ingressos que sequer chegaram ao público geral.
Aqueles que corriam apenas para desestressar, com qualquer roupa ou tênis, hoje podem se sentir deslocados. No fim das contas, para o mercado, o que menos importa é o seu fôlego; o que vale é o seu cartão de crédito. A corrida deixou de ser apenas um esporte para se tornar um grande negócio.


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